quarta-feira, 11 de abril de 2012

Então queres ser criador?

(Click here for the English version)

Há umas semanas fui contactada por uma rapariga que me fez inúmeras perguntas sobre os meus cachorros e o maneio dos meus cães. Eu sou a primeira pessoa a encorajar os potenciais donos dos meus cachorros a fazerem todo o tipo de questões que lhes ocorra, mas algo me começou a parecer estranho. Quando confrontada, ela respondeu-me que estava a fazer essas perguntas para aprender porque gostaria de ser criadora. Isto deixou-me a pensar sobre o assunto…


O que é ser um criador? Será que se “quer ser criador”, como se quer ser professor, médico, etc.? 


O que é um criador?


No seu Regulamento do Livro de Origens Português e do Registo Inicial, o Clube Português de Canicultura define o “criador” simplesmente como “o proprietário da cadela na ocasião do parto”. Isto é, naturalmente, uma definição ampla e objectiva, mais do que suficiente para o seu papel na emissão de registos.

Porém, nada nos diz sobre o intuito dos criadores, que é no fundo a primeira diferenciação entre eles. Já fiz um outro post a abordar este assunto, pode vê-lo clicando aqui

Por um lado, temos quem crie com um intuito declaradamente comercial, com o objectivo de obter o seu rendimento através da produção de cachorros para venda.
Pragmaticamente, nada há nada de fundamentalmente errado com isto, desde que os animais sejam mantidos em condições adequadas. No entanto, muitas vezes, para maximizar o rendimento, fazem-se “atalhos” pelo caminho, nomeadamente no maneio higieno-sanitário, na qualidade da alimentação, na realização de despistes de saúde, na verificação prévia da aptidão morfológica, comportamental e/ou funcional, na frequência de reprodução, na idade em que os cachorros são vendidos, etc. Mais do que “criadores”, talvez fosse mais correto chamá-los “produtores”.

Depois há quem crie porque tem uma cadela (ou cão) e, por qualquer desculpa razão, em qualquer fase da sua vida ou regularmente, decide fazer uma ninhada, sem que tenha uma razão definida para o fazer ou um objectivo a alcançar.

Finalmente, há os verdadeiros Criadores, aqueles com letra maiúscula. Frequentemente, são pessoas que nem sequer planearam vir a sê-lo. São pessoas que se apaixonaram por uma raça, que adquiriram alguns exemplares antes de mais para seu prazer, que se empenham a estudar a fundo tudo o que puderem sobre ela – comportamento, funcionalidade, problemas de saúde e/ou genéticos, linhas de criação, etc. –, frequentemente que foram “mordidas pelo bichinho” da canicultura enquanto hobby (provas de beleza e/ou práticas).
São pessoas para quem criar vem como uma extensão natural desta sua paixão e do conhecimento sobre a raça que foram adquirindo ao longo dos anos, na tentativa de a melhorar e de obter exemplares cada vez melhores. Quando criam, fazem-no como um acto muito ponderado, e com o intuito de obterem um ou mais exemplares para si; a venda de cachorros é essencialmente um “sub-produto” desta demanda. Investem muito nos seus exemplares e nas ninhadas, e raramente (se é que alguma vez!) obtêm, no cômputo geral, lucro através da criação.

As cadelas (e cães) devem criar pelo menos uma vez na vida?

 

Ainda é muito persistente o mito que os cães (e cadelas) devem criar pelo menos uma vez na vida, para não ficarem infelizes/frustrados/loucos!

Esta ideia será talvez devida ao facto de, à medida que os cães vão crescendo e alcançando a maturidade, ser comum vê-los a tentar montar cadeiras, sofás e mesmo as pernas das pessoas, sejam ou não os seus donos. Isto não significa, como muitos pensam, que o cão precisa de acasalar ou que está a querer dominar o dono. Significa simplesmente que os vários comportamentos relacionados com a sexualidade se estão a começar a integrar e coordenar numa cadeia coerente e funcional.

Quanto às cadelas, basta pensar que, nos canídeos sociais em estado selvagem, em alcateias estáveis, a maioria das fêmeas defere a reprodução em favor da fêmea dominante, para constatar como a ausência de reprodução não as afecta. Mais, qualquer gravidez em qualquer espécie, é sempre um stress e risco adicional que pode efectivamente comprometer a sua qualidade de vida.
Adicionalmente, tanto quanto se sabe, os cães não são capazes de momentos de retrospectiva, não são capazes de olhar para o seu passado ou futuro mais ou menos distantes e pensar “oh, como gostaria de ser mãe/pai”.

O “milagre” da vida


Uma das desculpas argumentações mais frequentemente ouvidas por quem cria com a sua cadela sem um objectivo definido é o de que é importante para os seus filhos assistirem ao “milagre” do nascimento e da vida.

Bem, espero que estejam também preparados para ensinarem aos seus filhos o “milagre” da corrida de emergência para o veterinário se algo correr durante o parto.

E para lhes ensinarem o “milagre” da morte – porque mesmo que não se passe nada de errado durante o parto e a cadela não morra (é sempre um risco a ponderar!), é comum que um ou mais cachorros morram nos primeiros dias após o parto, por razões várias.

O que fazer aos cachorros?

 

Se está a criar porque quer um cachorro da sua cadela/do seu cão, o que fazer aos restantes cachorros? Porque dificilmente irá nascer só um…
Criando porque “é importante que as crianças saibam como ocorre um nascimento”, o que fazer depois aos cachorros?
Quantos de nós não recebemos já, por e-mail ou nas redes sociais, mensagens reencaminhadas de amigos bem intencionados, dizendo que “X cachorrinhos da raça Y precisam de encontrar dono na próxima semana senão serão abatidos”?

Se não tem destino previamente preparados para os seus cachorros, porquê criar? Está preparado para explicar aos seus filhos porque é que lhes mostrou o “milagre” do nascimento e depois largou os cachorros num sítio qualquer ou os mandou abater porque ninguém quis ficar com eles e não tem espaço/condições/dinheiro para ficar com mais cães?

Cada vez mais, até os criadores bem estabelecidos, frequentemente com reservas prévias, estão a ter dificuldades em entregar os seus cachorros; muitas pessoas revelam interesse mas depois não concretizam, outras cancelam as suas reservas devido a mudanças (in)esperadas nas suas vidas. A dificuldade em encontrar bons donos para quem não é conhecido é ainda maior. Bem, pelo menos para quem se preocupa em que os seus cachorros vão para casas em que não os abandonem à primeira "desculpa" “contrariedade”.

A saúde é importante


Sabe-se que os cães, consoante a sua a raça e/ou o seu porte, são mais ou menos propensos a determinadas patologias. Mesmo que os progenitores não as manifestem eles próprios, podem ser portadores de genes para algumas delas, e produzir descendência afectada se acasalarem com outros portadores; podem ainda estar afectados mas não a(s) manifestar(em) por serem ainda novos (algumas doenças apenas se manifestam em fases mais tardias da vida).

Uma pessoa que apenas queira criar por criar tipicamente não se irá preocupar com o facto de poder vir a criar cães doentes (afinal, todos esperamos apenas o melhor, nunca pensamos no que pode correr mal, não é?). Aliás, algumas fazem-no mesmo sabendo que o seu animal tem algum problema, apenas porque é o seu preferido e querem um filho dele.

Porém, um criador sério irá naturalmente tentar evitar criar cachorros potencialmente doentes. Como? Fazendo exames prévios aos seus potenciais reprodutores, quer testes genéticos (se os genes para as doenças em causa já tiverem sido identificados) quer testes de despiste (tentando averiguar se o exemplar apresenta sintomas clínicos da doença, mesmo que não seja ainda possível aperceber-se dela).

Não pense que, tendo um cão sem raça, ou cruzando cães de raças diferentes, não precisa de se preocupar com isto. Afinal, os genes são os mesmos em toda a espécie; a frequência de ocorrência dos seus alelos é que pode variar. Por exemplo, cães de grande porte estão mais propensos à displasia da anca, sejam ou não de raça. Cruzar cães de duas raças diferentes não é uma razão para não testar os seus animais; se ambas tiverem propensão à(s) mesma(s) doença(s), os cachorros não vão miraculosamente deixar de poder ser afectados só por não serem de raça pura!

Criar exige esforço e dedicação!


Mesmo quando tudo corre bem, criar não é simplesmente cruzar um cão com uma cadela, deixar os cachorros nascer, crescer e entrega-los a outras pessoas. É uma actividade que exige tempo e dedicação, para que os cachorros tenham o melhor início de vida possível.

É necessário vigiar o parto para tentar garantir que não há complicações e que a mãe cuida adequadamente dos cachorros. É necessário vigiar, ao longo das semanas seguintes, se os cachorros mamam o suficiente, se estão a crescer bem, e suplementar se necessário.
É necessário estimular os cachorros, física e mentalmente, habituá-los a várias situações, sons, cheiros, animais e pessoas, de formam a que cresçam felizes e emocionalmente estáveis.

É necessário fazer a triagem das pessoas interessadas nos cachorros, de forma a tentar assegurar que o futuro dono está apto para lidar com o que se pode esperar do carácter da raça e tentar conjugar os feitios individuais dos donos e dos cachorros.

A criação de cães não se compadece dos afazeres do dono da cadela. A mãe, por qualquer razão (doença/morte/leite insuficiente/rejeição) não pode cuidar dos cachorros? É ao criador que recai a responsabilidade de lhes dar de mamar de 2 em 2 h, de dia e de noite. Está doente, com uma depressão ou com uma crise familiar? Azar, os cachorros precisam de comer! Tem um trabalho das 9 h às 18 h e não tem ninguém em casa? Azar, os cachorros precisam de comer! Se se responsabilizou por pôr uma ninhada de cachorros no mundo, tem também de se responsabilizar por a criar adequadamente, mesmo quando a mãe deles não o pode ou consegue fazer.

Decisões e dilemas fazem parte do dia-a-dia

 

E o que fazer com aquele cachorro mais fraco que em condições normais iria morrer? Tentar salvá-lo a todo o custo, mesmo sabendo que a prazo isso pode comprometer a viabilidade e robustez da raça (por mais tarde se criar com cães que não “deveriam” ter sobrevivido)? Deixá-lo morrer pois isso é o que aconteceria numa situação normal (mas numa situação normal a cadela provavelmente nem se teria reproduzido)?

Não existe uma resposta correcta, única ou fácil, mas este é o tipo de decisões e dilemas morais com que um criador se depara em cada ninhada…

Ainda quer criar?


Criar cães e vê-los crescer é sem dúvida uma experiência inolvidável! Exige muito tempo e dedicação, mas quando tudo corre bem, os benefícios (para o criador e para os futuros donos) suplantam as preocupações.
Mas há que estar preparado para as complicações, algo em que a maioria das pessoas não gosta de pensar e para as quais uma pessoa inexperiente (e por vezes experiente) não está normalmente preparada.

Pense bem se quer criar com o seu cão/cadela, analise bem as razões porque o quer fazer e pondere o que fazer aos cachorros (sim, isto também é uma responsabilidade do dono do macho, não apenas do da cadela!). Na maioria das vezes, é preferível, financeira e emocionalmente, castrar o seu animal (para evitar reprodução não desejada e os transtornos que isso origina) e deixar a criação para os criadores sérios e apaixonados, dispostos a sacrifícios para que cada cachorro que nasce seja o melhor possível e tenha uma vida feliz desde o início.

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